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De volta às pistas – Por Marcelinho Tavares

Bom, minha história na corrida começou em meados dos anos 80, quando meu cunhado casado com minha irmã já corria algumas provas de rua. Em 1983 aconteceu uma circuito de corrida infantil organizado pelo extinto Banco Econômico no qual no ato da inscrição os participantes ganhavam uma poupança com um valor que não lembro. Lembro como se fosse hoje ele falando: “Te inscrevi na corrida e vou te levar” !!!

Nunca havia corrido, naquela época jogava bola na praia e outra coisas mais de adolescentes levados.  A corrida tinha 800 metros. Meu cunhado falou: “Faz o teu melhor” . No final havia chegado em 7º lugar e meu cunhado Filipe estava tão tão feliz que quando cheguei me falou que já estava inscrito para próxima! hahahahha

Era assim o começo da paixão e da loucura chamada corrida. Tinha 12 anos, e criança não corria como esporte até então. Com 13 para 14 anos meu cunhado me apresentou para seu técnico Lauter Nogueira. Fui lá e ele me convenceu a treinar 2 vezes na semana, como se fosse uma diversão!

Porém alguns meses à frente fui fazer um exame de rotina e aí a surpresa: estava diabético com uma taxa elevadíssima 560, muito alta para aquele margeio iniciando a vida. Uma doença que até então era pouco conhecida… será que vou morrer? Tem cura? Serei uma pessoa normal, vou poder ir na praia, ao colégio … era uma imensa nuvem negra… Porém como sempre eu falo quem tem uma família tem a cura para quase tudo. Nos reunimos para procurar o melhor médico, o melhor nutricionista e tal.

Meses depois descobri que podia fazer tudo, aliás muito melhor que os outros e a corrida virou uma cachaça. Era a minha fuga, minha insulina, meu tudo. Treinei 12 anos anos com o Lauter. Ele era um pai. Um verdadeiro educador físico. Tratava a gente como filho… enchíamos o saco dele …  E desses longos 12 anos muitas histórias, muitas vitórias, muitos amigos, muito respeito pelo diabetes tipo 1. Entendi que diabetes significava um bom controle entre atividade física, medicamentos e alimentação.

Ao longo de todos esses anos correndo vi a evolução da corrida de rua no Rio de Janeiro, posteriormente no Brasil e no exterior. Como disse fiquei diabético com 14 anos e desses 26 anos com a doença a corrida teve um papel muito importante no meu controle glicêmico. Com os trenos diários e em 2 turnos o diabetes era levado como uma doença que eu poderia conviver com ela e não deixar a doença me debilitar a ponto de eu me sentir um doente, como em vários lugares por onde passava e encontrava com diabéticos que estavam praticamente derrotados pela doença e pelo pouco entendimento até então do diabetes.

Nunca tive um problema sequer por causa do diabetes, tomava minha insulina e ia viver a vida, correr, namorar, ir a praia… fazia tudo, era normal. Porém tive que dar um intervalo nas corridas primeiro por um acidente de carro que sofri com meus amigos, tendo uma torção muito forte no joelho onde fiquei quase um ano para me recuperar  e posteriormente por causa da minha entrada na faculdade de Educação Física. Em vários momentos meu diabetes ia de mau a pior, pois me acostumei a tomar pouca insulina por estar praticando atividade física, e quando parei quis continuar com as mesmas doses.

No final de 2007, um aluno me fez um convite para correr a meia maratona da Disney e aceitei retornar aos treinos. Em dois meses já estava me sentindo muito bem, treinos encaixando com a alimentação, porém em uma tarde que estava entrando no trabalho, tive que verificar a pressão sangüínea e aí o primeiro susto 22/11 !!!!! Uau!! O médico que havia feito o exame pediu para eu procurar um cardiologista e fazer um check-up e para minha surpresa tudo estava ok, somente um pequeno desvio na minha creatinina. Ele falou que se eu apertasse mais o controle do diabetes abaixaria a taxa.

Dai pra frente tive que ficar fazendo acompanhamento dos rins, exames, dieta e mais controle glicêmico. Aquilo tudo para um cara que nunca tinha tido uma gripe era mortal, minha cabeça começou a pirar, daí veio o isolamento, o medo de fazer diálise, de morrer, transplante etc…..

Após o carnaval de 2010 fui a uma consulta que por lá fiquei, meu corpo estava tão intoxicado que poderia ter morrido pedalando, correndo ou até nadando. Neste período comecei a fazer diálise, uma rotina de três vezes por semana, plugado em uma máquina que filtrava meu sangue e me mantinha vivo. Logo eu, que há 10 anos atrás havia corrido 5 kms em 14:47, 10 kms em 31:55 e uma meia para 1:11 estava passando por aquilo. Deus o que o Sr. propôs pra mim? Em 14 meses de diálise refleti. Vi que tenho a melhor família do mundo, os melhores amigos que Deus podia me dar  e a maior saúde para poder agüentar aquela rotina de trabalhar 10 horas por dia e enfrentar 4 horas de diálise além de treinar e passar para os outros que estava tudo ok.

Foram tempos difíceis, porém como havia dito lá atrás começamos a falar em transplante de rim, quem poderia doar, quem se candidataria. Dai numa tarde de domingo meu cunhado, irmão, pai e tudo que você pode esperar de um ser mais que humano falou com seus 2 filhos, meus sobrinhos, sobre o tal exame de compatibilidade.
Fomos fazer os 4 os exames e para nossa felicidade os meus 2 sobrinhos e meu cunhado eram compatíveis! Cara que emoção indescritível!

Volto um pouco atrás no tempo e falo sobre o meu doador: meu sobrinho que tem uma diferença para mim de idade de 7 anos . O cara é mais que meu filho! É amigo e sobrinho, é a minha vida! Retornando meu sobrinho, vulgo Rafael Belela, se propôs a doar seu rim , e disse que não seria mais ninguém, começamos então os exames para o tão sonhado transplante. Após esse período chegou o tal dia 12/04/11. Fomos nos internar na véspera, o clima era tenso… viver, morrer, quanto tempo demora … e após 3 horas de cirurgia veio a grande noticia que o transplante havia sido perfeito!

Foram 16 longos dias no hospital, fisioterapia, medicamentos, visitas. Minha família, meus amigos e eu mesmo mal podíamos acreditar que sairia da diálise! Cara, coisa de louco! Porém como te falei anteriormente que Deus havia guardado algo muito especial pra mim. Em 33 dias de recuperação meu medico me liberou para andar e malhar de leve. Com 45 dias voltei a dar personal  e o melhor estava por vir …  após 3 meses pude dar meu primeiro trote após longos 4 anos. Com 5 meses um grande amigo e aluno de personal me presenteou com uma estréia glamurosa nas pistas de atletismo: fui correr os 10 kms de lá, seu nome Maurício Pitanga, sua função me fazer completar a prova. Detalhe para o fato que era um recém operado 67 minutos com frio de 8 graus!

Hoje minha vida é extremamente normal! Tomo meus remédios de 12/12 hrs, trabalho 12 hrs por dia e ainda corro.

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