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SOBRE DOAÇÃO DE ÓRGÃOS E EMPATIA – por Paula Trottmann

Desde que me recordo, sempre fui simpatizante da doação de órgãos. Lembro-me que queria registrar isso no RG e descobri, desapontada, apenas pelo desconhecimento da causa, que não poderia fazer isso. Mas ainda assim, continuei a simpatizar e me manifestar como uma doadora de órgãos quando o assunto surgia… E só.

Vivi minha vida, sonhei e realizei muitos sonhos: passar no vestibular e me formar, fazer pós-graduação e mestrado, trabalhar na gestão pública, noivar, ter minha casa, casar, viajar pelo Brasil e pelo mundo, entrar para o doutorado e… engravidar de gêmeos. Até que poucos dias antes de completar 32 semanas de gestação, não me senti bem. Alguns dias – precisamente 8 – separaram-me da minha vida de simpatizante da doação de órgãos à transplantada. Sim, em menos de 10 dias eu passei de gestante saudável a doente grave e “vi” (entre aspas mesmo, já que eu não vi nada, pois estava em coma) minha vida depender de um transplante.

E foi assim que acordei – numa UTI, já sem meus filhos – e descobri com muita relutância que eu havia sido transplantada. Demorei dias para saber de qual órgão havia precisado: um fígado. E aos poucos, fui conhecendo minha rápida, mas não simples, relação com a doação de órgãos.

E foi nesses primeiros dias consciente, sem ter clareza sobre a gravidade de tudo, que eu fui tomada por um primeiro sentimento de revolta. Revolta? Não, era empatia, disfarçada de revolta. Eu não conseguia aceitar ter recebido um órgão em dias sabendo que milhares de pessoas ficavam na fila um tempão esperando. Por que eu? Eu estava com o coração cheio de gratidão, mas foi com uma relutância silenciosa que recebi esse fígado “de vez”. Eu não merecia mais que ninguém, mas a gravidade da situação se impôs.

Empatia. Esse sentimento de que tanto falamos e precisamos, ainda mais nos dias de hoje. E você? Já se colocou no lugar do outro hoje? Tente, e eu te asseguro, você é que será recompensado.

Paula Trottmann é transplantada de fígado, mãe de gêmeos, gestora pública e doutoranda em ciência política.

soudoadororg

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