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A HISTÓRIA DE UM NOVO CORAÇÃO – Por Dr. Frederico Di Giovanni (Especial Dia Nacional do Cardiologista)

O médico tem a obrigação de meio, ou seja, deve empregar todas as técnicas adequadas com atenção e zelo para alcançar a cura. Estatisticamente isso não é garantia de cura, portanto o médico não tem obrigação de fins (resultados) e sim dos melhores meios aplicados no tratamento. Mas, algumas vezes nos deparamos com desafios em que a obrigação do resultado invade emocionalmente a mente do cirurgião.

Tudo começou em junho de 2016 quando recebi uma agradável surpresa – mensagem no celular – um grande e querido amigo de juventude, tempos de escola, hoje engenheiro Renato Lourenço. A alegria de ver aquela mensagem do amigão de muitos anos, rompendo a ausência causada pelos diferentes caminhos entre colegas de infância, logo tornou se motivo de preocupação. Ele solicitava uma consulta para a “Isa”.

Mas quem é a Isa? Oras! Passados 30 anos, a vida seguiu, casou, tinha dois filhos e a “Isa” é Isabeli, sua filha de 26 anos, fisioterapeuta, casada, amante do surf e velejadora. Foi a primeira de várias consultas, até que em 10/10/2017, incluí definitivamente na lista de espera do Sistema Nacional de Transplantes. Iniciava-se a expectativa para o esperado dia do anúncio da Central de Captação de Órgãos de Santa Catarina dizendo que havia chegado o tão esperado novo coração.

Em 14/03/2018, por volta das 14h30, recebi da Central um telefonema disponibilizando o coração. O doador estava no Hospital Santa Isabel em Blumenau. A longa espera de 5 meses não só fez aumentar a expectativa da Isabeli pelo esperado momento como tinha elevado também a minha ansiedade. Receber o aviso da disponibilização de um coração após longo tempo de silêncio, provoca uma sensação difícil de traduzir em palavras. Um doador é sempre aguardado, mas o “o tempo de espera” transforma um aviso de doação em surpresa, com misturas de sentimentos, alegria e receio. Imediatamente passei a verificar todos os detalhes médicos, exames e condições do doador objetivando confirmar ou negar aquele coração para a receptora.

Tínhamos uma distância geográfica para superar e a equação do tempo para resolver, confirmamos o “aceite” do órgão às 15h30, a cirurgia para captação do coração deveria iniciar impreterivelmente até as 18h00. Isabeli estava em Jaraguá do Sul, eu estava em Florianópolis e o transplante em Blumenau. A largada foi dada.

Espetaculares e prontos para ajudar, o Corpo de Bombeiros entra em ação com o Helicóptero Arcanjo indo à Jaraguá para trazer a Isabeli até o heliponto do Hospital afim de prepará-la a tempo para a entrada na sala de cirurgia. A Central de Captação providenciou o avião do Corpo de Bombeiros em Florianópolis para me transportar até o aeroporto de Blumenau, de lá o mesmo Helicóptero que havia deixado a Isabeli no Hospital resgatou-me no aeroporto e cruzou todo o trajeto congestionado da cidade em apenas 5 minutos o que de carro levaria 50 minutos.

Todos no Hospital! Prontos para o grande momento. Simultaneamente as cirurgias foram iniciadas, o novo coração na sala do doador e na sala ao lado a receptora Isabeli com o peito sendo aberto, instalando um coração artificial temporário para podermos retirar o “velho e cansado coração” desta jovem e vivaz velejadora. Apesar de todos os exames demonstrarem a falência daquele coração, no momento em que olhei diretamente para ele, tórax aberto, o coração da “Isa” não parecia bater, mal dava para notar o seu movimento. A partir desse momento, as últimas imagens que vagueavam em meus pensamentos com a lembrança do meu querido amigo, Renato, aguardando o final do transplante da filha sumiram! Minha concentração e atenção durante toda a cirurgia, manobra por manobra, não deram chance para qualquer outro desvio de pensamento. Até que após exatas 2 horas soltei a pinça para circular o sangue da velejadora no coração novo… olhei fixo para ele… sem piscar… torcendo… à medida que recebia o sangue da Isabeli esperava ansioso pela primeira batida… finalmente… iniciou sem muita cerimonia fortes batidas, parecia até que ele sempre esteve ali, no peito da Isabeli.

Que alegria! Quanto alívio! Eu já poderia encontrar meu querido amigo Renato e dar a boa notícia, libertando minha ansiedade daquele momento, encerrando o confronto com os riscos estatísticos. Obrigatoriamente deveria ser de absoluto sucesso. Um transplante que não poderia falhar.

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